Engraçado como um único sinal gráfico muda muita coisa: As frases do título são perfeitamente normais para esta época (mesmo que atrasadas), e estariam completamente nos conformes se não fossem aqueles dois pontos de interrogações, enormes e desengonçados, atrapalhando os anos de tradição por trás deles.
Porém, eu gosto de pontos de interrogação, com aquela curvinha engraçada para trás que parece uma orelha com um brinco, aquele formato desengonçado que destoa tanto das outras letras mais regulares...
E também gosto muito do que ele significa: Com sua curva, nos faz voltar para a frase que foi escrita e vê-la de uma forma diferente: Não é uma afirmação, e sim uma pergunta, um questionamento...
E, obviamente, como a chata que sou, adoro questionar as coisas.
Depois de uma breve análise do ponto de interrogação, sua forma e significado, percebo que, além do ponto de interrogação na frase, não entendo mais nada do título que escrevi.
É claro que já ouvi, e a educação me obriga a falar cada uma das duas frases inúmeras vezes por ano, principalmente nesse último mês, mas de alguns anos para cá, elas simplesmente entalam na minha garganta e deixam um gosto amargo, de tão constrangida que fico em falar. Não saem com naturalidade, ou pelo canto da boca, ou até mesmo não falo, se ninguém falar para mim.
Não, não sou uma pessoa amarga que não gosta de Natal nem de Ano Novo, ou que despreza essas festas por uma questão de princípios estranha. Na verdade, acho bonita a simbologia e a mensagem que cada uma passa (embora o consumismo natalino me deixe enjoada)...
Eis o meu problema:Feliz Natal, Feliz Ano Novo... Qual é o sentido disso?Afinal, o porquê eu acho que consigo compreender: Falamos isso por costume, ou por sermos educados, ou para NÃO sermos mal-educados de não desejar a alguém um feliz natal quando TODOS falam isso... Mais um dos tantos rituais repetidos à exaustão... Mas e daí?
O que queremos dizer com isso?
Esse era o comecinho de um texto do final do ano passado, que não postei por razões que agora já me escapam - mas um ano depois, o sentimento continua - por que, por que, por quê?Já ouço agora a voz de um certo srto. Gomes, balançando a cabeça: "mas por que você precisa implicar com o sentido das coisas, Lis"?
Pois preciso - cada vez que sinto que faço algo via piloto automático, sinto que preciso sentar um pouquinho para pensar na razão para isso. Nem que seja qualquer razão sentimental ou transcendental ou espiritual ou deu-na-telhal... Mas uma razão deve ter. Digo, além da convenção social e tudo o mais. Porque eu acredito que as coisas não começam do nada - mesmo que a razão seja totalmente diferente, com um significado que já morreu ao longo das eras, havia uma razão inicial que fez tudo começar...
Mas a minha implicância com o sentido, agora, é que eu não sou lá muito fã de ficar carregando coisas mortas e deturpadas comigo sem saber - imagine só sua vida toda carregando carcaças sociais, que já perderam o seu sentido mas continuam, apodrecidas, fedidinhas, perpetuando-se onde não há ar fresco que as ressignifique e traga de volta à vida, ou deixe-as descansar em paz.
(Tenho aquela imagem mental das pessoas com um barbante amarrado no pulso, segurando balões de gás com expressões-zumbis-fantasmas, alegremente passeando enquanto uma cena digna de jogos mortais se passa acima delas... mas aí já é minha imaginação hiperativa em uma hora avançada.)
De qualquer forma, de tanto enrolar o texto não ficou sobre natal, ou sobre ano novo, mas sim sobre como todos nós fazemos tantas coisas assim, do nada, sem parar para pensar no que queremos realmente dizer. Isso não é meio que uma falsidade ideológica, quase? Sair falando coisas para as pessoas, com um ar de vagamente (ou até falsamente) contente, sem saber o que exatamente desejamos? O natal, o ano novo... me parecem palavras carregadas de significado simbólico, veja quantos séculos tivemos para acumulá-los... Mas coisas com tantos significados podem também acabar não tendo significado algum.
Feliz Natal, então, é o que? "ganhe um monte de presentes, encha a cara e coma coisas gordurosas?", ou talvez "faça a festa perfeita e estressante para todos os seus familiares e tente evitar as brigas entre adultos e bagunça entre crianças?" ou "lembra lá daquele menininho que supostamente nasceu há 2000 anos atrás, todo pobrezinho, mas na verdade era pra ele salvar o mundo?" ou, ou... E olha que eu não vou nem começar no ano novo.
Talvez eu esteja sendo boba. Oras, talvez as pessoas só queiram dizer "seja feliz nessa época do ano que é o natal". Mas aí voltamos para o significado do natal - afinal, ninguém sai dizendo "feliz dia de hoje!" ou "seja feliz" todos os dias. Será que não é um desejo, mas um dever, que sejamos felizes no natal, no ano novo ou no nosso aniversário?
Pronto, já compliquei tudo de novo.
Clarisse Lispector já dizia que só com muito trabalho que conseguia a simplicidade... E com esse emaranhado de coisas complicadas, concordo plenamente com ela.
Mas, como sempre faço na vida real, ao invés de arrumar toda a bagunça que faço (só que, ao invés de serem roupas e CDs e muitos papéis, são idéias), simplesmente deixo tudo lá, empilhado em um equilíbrio precário e fantasticamente desafiador da gravidade, deito-me em minha cama e durmo feito um pedregulho. Não tenho pretensões de ter todas as respostas, nem mesmo de fazer as indagações certas - não tenho nem o diploma nem o talento - então só fico pirando aqui sozinha, na tranquilidade de que poquíssimos vão ler, mesmo...
Mas fica a pergunta: o que significa dizer "feliz natal", ou "feliz ano novo"? Tento construir meu significado - ou substituir por uma frase um tantinho mais criativa quando tiver que falar. E assim caminha o pensamento, e assim eu caminho para minha cama.
Boa noite!
domingo, dezembro 13, 2009
quinta-feira, dezembro 10, 2009
Tempo de Viver
E lá vou eu ver o blog de novo, e perceber que já faz quase meio ano que eu não escrevo nada... Aliás, vejo meu diário, meu caderno de poesias, até mesmo minhas idéias de histórias e... nada. O pouco que eu escrevo são os trabalhos de faculdade, as conversas paralelas no caderno de introdução a filosofia e uma ou outra charge mal-desenhada com os Nietzsche, os deuses do olimpo e Hans Kelsen...
Mas acho que não vim aqui para falar de meus desenhos, não é?
A questão é que, com tanta coisa acontecendo, parece que eu não tenho nem mais tempo de escrever... Ou será que tenho?
Quando paro e penso, vejo que escrevia muito mais em épocas em que tinha, sim, montanhas de coisas para fazer - vide época de cursinho - mas parei de escrever justamente quando tinha algum ócio. Não posso julgar essa "abstinência" pela falta do que comentar, ou pela falta de pensamentos bizarros para me levar a escrever - afinal, tem tantas coisas acontecendo, e tantos pensamentos interessantes e dignos de se escrever sobre, que eu até fico perdida, sem saber por onde começar...
Eu lembro que até os 15 anos, escrevia muito - terminei um caderno grande, cheio de comentários, fácil, fácil... Mas, assim que comecei a namorar pela primeira vez, parei de escrever tanto.
E o que isso tem a ver com a história toda?
Pois bem, a conclusão a qual eu cheguei é que a falta de tempo ou vontade ou paciência para escrever não vem, de fato, do tempo, ou quantidade de assunto, ou volume de coisas que estão acontecendo.
É que simplesmente tem horas que eu não paro para escrever porque estou muito ocupada vivendo. Veja bem, isso não significa que eu não viva direito quando esteja escrevendo - é só que, às vezes, tenho sentimentos tão preciosos e aparentemente comuns que qualquer tentativa de escrevê-los me colocaria naqueles clichês bobos, que eu quero evitar a todo o custo. Ou também porque aproveito cada momento exatamente tal qual ele é, sem precisar repensar ou reciclar ou colocar em palavras, pois só o fato de eu ter vivido aquilo já basta em sua totalidade...
O único problema que isso me causa, naturalmente, é que eu deixo de ter uma chance de olhar para trás e ouvir da minha própria voz (ou, no caso, de meus próprios dedos), o que eu pensava e sentia naquela época -e não uma memória já mudada, envelhecida junto comigo. Eu vejo que até os textos que eu considerava mais bobos são vivos e tem algum significado quando eu volto para lê-los.
E aí eu me lembro do porquê de eu estar aqui, de eu manter um blog que seja - não para a posterioridade, nem necessariamente para os outros (que têm uma paciência de ouro para aguentar as minhas pirações aqui), mas sim para que eu também possa olhar para trás e ver quem eu fui, para entender quem e por que eu sou o que sou agora.
Porque o que sou é sempre mutável - ainda procuro entender o que pode ter restado de estático em minha vida, se há uma essência de Luisa ou apenas marcas que a vida deixou interagindo com marcas que a vida ainda quer deixar. Já fui extrovertida, já fui tímida, já fui manhosa e estóica, já fui amarga e otimista... Mas talvez haja uma coisa genuinamente minha, uma alma (quem sabe?) que guarde algumas diretrizes básicas para o mundo e minha teimosia construirem...
Será que isso também muda com o tempo?
Enfim, é findo meu tempo e a bateria do laptop, ainda tenho algumas pendências antes de acabar o semestre, e nem a própria autora aqui aguenta tantas "metablogagens", mil e uma justificativas do porquê de escrever ou não, que acabam tomando uma enorme parte das minhas linhas.
Despeço-me então, com uma (talvez vã) promessa de tentar registrar os momentos tão bons que vivo, até mesmo quando difíceis, nunca em sua totalidade, mas pelo menos algumas fotografias de letras para que possa lembrar o quanto me sinto viva...
Tentarei pois conciliar meu tempo de viver com o tempo de escrever.
Mas acho que não vim aqui para falar de meus desenhos, não é?
A questão é que, com tanta coisa acontecendo, parece que eu não tenho nem mais tempo de escrever... Ou será que tenho?
Quando paro e penso, vejo que escrevia muito mais em épocas em que tinha, sim, montanhas de coisas para fazer - vide época de cursinho - mas parei de escrever justamente quando tinha algum ócio. Não posso julgar essa "abstinência" pela falta do que comentar, ou pela falta de pensamentos bizarros para me levar a escrever - afinal, tem tantas coisas acontecendo, e tantos pensamentos interessantes e dignos de se escrever sobre, que eu até fico perdida, sem saber por onde começar...
Eu lembro que até os 15 anos, escrevia muito - terminei um caderno grande, cheio de comentários, fácil, fácil... Mas, assim que comecei a namorar pela primeira vez, parei de escrever tanto.
E o que isso tem a ver com a história toda?
Pois bem, a conclusão a qual eu cheguei é que a falta de tempo ou vontade ou paciência para escrever não vem, de fato, do tempo, ou quantidade de assunto, ou volume de coisas que estão acontecendo.
É que simplesmente tem horas que eu não paro para escrever porque estou muito ocupada vivendo. Veja bem, isso não significa que eu não viva direito quando esteja escrevendo - é só que, às vezes, tenho sentimentos tão preciosos e aparentemente comuns que qualquer tentativa de escrevê-los me colocaria naqueles clichês bobos, que eu quero evitar a todo o custo. Ou também porque aproveito cada momento exatamente tal qual ele é, sem precisar repensar ou reciclar ou colocar em palavras, pois só o fato de eu ter vivido aquilo já basta em sua totalidade...
O único problema que isso me causa, naturalmente, é que eu deixo de ter uma chance de olhar para trás e ouvir da minha própria voz (ou, no caso, de meus próprios dedos), o que eu pensava e sentia naquela época -e não uma memória já mudada, envelhecida junto comigo. Eu vejo que até os textos que eu considerava mais bobos são vivos e tem algum significado quando eu volto para lê-los.
E aí eu me lembro do porquê de eu estar aqui, de eu manter um blog que seja - não para a posterioridade, nem necessariamente para os outros (que têm uma paciência de ouro para aguentar as minhas pirações aqui), mas sim para que eu também possa olhar para trás e ver quem eu fui, para entender quem e por que eu sou o que sou agora.
Porque o que sou é sempre mutável - ainda procuro entender o que pode ter restado de estático em minha vida, se há uma essência de Luisa ou apenas marcas que a vida deixou interagindo com marcas que a vida ainda quer deixar. Já fui extrovertida, já fui tímida, já fui manhosa e estóica, já fui amarga e otimista... Mas talvez haja uma coisa genuinamente minha, uma alma (quem sabe?) que guarde algumas diretrizes básicas para o mundo e minha teimosia construirem...
Será que isso também muda com o tempo?
Enfim, é findo meu tempo e a bateria do laptop, ainda tenho algumas pendências antes de acabar o semestre, e nem a própria autora aqui aguenta tantas "metablogagens", mil e uma justificativas do porquê de escrever ou não, que acabam tomando uma enorme parte das minhas linhas.
Despeço-me então, com uma (talvez vã) promessa de tentar registrar os momentos tão bons que vivo, até mesmo quando difíceis, nunca em sua totalidade, mas pelo menos algumas fotografias de letras para que possa lembrar o quanto me sinto viva...
Tentarei pois conciliar meu tempo de viver com o tempo de escrever.
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