terça-feira, maio 25, 2010

Esse sentimento difuso...

Começo com mais um lugar-comum nesse blog: deveria estar dormindo. Já estou num regime de menos de 8 horas de sono - aulas à noite e de manhã -, e o recomendável seria que eu tivesse, no mínimo, umas 7 horinhas, 7 e meia... Mas talvez não consiga dormir justamente por ter tantas coisas na cabeça.

Dessa vez, não há um foco principal com o que teorizar - nos 15 minutos que compõe a viagem de carro da UnB até a minha casa, já foram tantas coisas diferentes que não saberia nem mais recontar a linha básica do que pensei e senti...

Ultimamente ando lidando com estranhos sentimentos difusos.

Aqueles sentimentos que parecem não ter um nome definido, não parecem ter uma causa nítida em que se repousar, mas são fortes o suficiente para se materializarem em apertos de garganta e até mesmo lágrimas sem conseguir saber um motivo, uma causa de reação.

Será que isso sou eu saindo da "lua-de-mel" com Brasília para perceber que, não, as decepções e as dificuldades e a sensação de solidão não ficaram para trás lá em Curitiba?

Será que, fora da minha confortável torre de revolta do Ensino Médio, eu não estou descobrindo que sou muito mais fraca e mesquinha do que pensava que era?

Será que alguma soma de acontecimentos e pessoas na minha vida minaram minha autoconfiança de uma forma silenciosa e gradual, e me fazem parecer, agora, pequena e indefesa?

Será que é alguma coisa química maluca do meu cérebro, ou alguma alteração corporal, que magicamente fez uma situação que não teria razão para drama algum parecer tão desanimadora por vezes?

Será que estou dormindo pouco, simplesmente?


Bem, no final das contas...

Eu não sei.




domingo, dezembro 13, 2009

Feliz Natal? Feliz Ano Novo?

Engraçado como um único sinal gráfico muda muita coisa: As frases do título são perfeitamente normais para esta época (mesmo que atrasadas), e estariam completamente nos conformes se não fossem aqueles dois pontos de interrogações, enormes e desengonçados, atrapalhando os anos de tradição por trás deles.

Porém, eu gosto de pontos de interrogação, com aquela curvinha engraçada para trás que parece uma orelha com um brinco, aquele formato desengonçado que destoa tanto das outras letras mais regulares...

E também gosto muito do que ele significa: Com sua curva, nos faz voltar para a frase que foi escrita e vê-la de uma forma diferente: Não é uma afirmação, e sim uma pergunta, um questionamento...

E, obviamente, como a chata que sou, adoro questionar as coisas.

Depois de uma breve análise do ponto de interrogação, sua forma e significado, percebo que, além do ponto de interrogação na frase, não entendo mais nada do título que escrevi.

É claro que já ouvi, e a educação me obriga a falar cada uma das duas frases inúmeras vezes por ano, principalmente nesse último mês, mas de alguns anos para cá, elas simplesmente entalam na minha garganta e deixam um gosto amargo, de tão constrangida que fico em falar. Não saem com naturalidade, ou pelo canto da boca, ou até mesmo não falo, se ninguém falar para mim.

Não, não sou uma pessoa amarga que não gosta de Natal nem de Ano Novo, ou que despreza essas festas por uma questão de princípios estranha. Na verdade, acho bonita a simbologia e a mensagem que cada uma passa (embora o consumismo natalino me deixe enjoada)...

Eis o meu problema:Feliz Natal, Feliz Ano Novo... Qual é o sentido disso?Afinal, o porquê eu acho que consigo compreender: Falamos isso por costume, ou por sermos educados, ou para NÃO sermos mal-educados de não desejar a alguém um feliz natal quando TODOS falam isso... Mais um dos tantos rituais repetidos à exaustão... Mas e daí?

O que queremos dizer com isso?

Esse era o comecinho de um texto do final do ano passado, que não postei por razões que agora já me escapam - mas um ano depois, o sentimento continua - por que, por que, por quê?Já ouço agora a voz de um certo srto. Gomes, balançando a cabeça: "mas por que você precisa implicar com o sentido das coisas, Lis"?

Pois preciso - cada vez que sinto que faço algo via piloto automático, sinto que preciso sentar um pouquinho para pensar na razão para isso. Nem que seja qualquer razão sentimental ou transcendental ou espiritual ou deu-na-telhal... Mas uma razão deve ter. Digo, além da convenção social e tudo o mais. Porque eu acredito que as coisas não começam do nada - mesmo que a razão seja totalmente diferente, com um significado que já morreu ao longo das eras, havia uma razão inicial que fez tudo começar...

Mas a minha implicância com o sentido, agora, é que eu não sou lá muito fã de ficar carregando coisas mortas e deturpadas comigo sem saber - imagine só sua vida toda carregando carcaças sociais, que já perderam o seu sentido mas continuam, apodrecidas, fedidinhas, perpetuando-se onde não há ar fresco que as ressignifique e traga de volta à vida, ou deixe-as descansar em paz.

(Tenho aquela imagem mental das pessoas com um barbante amarrado no pulso, segurando balões de gás com expressões-zumbis-fantasmas, alegremente passeando enquanto uma cena digna de jogos mortais se passa acima delas... mas aí já é minha imaginação hiperativa em uma hora avançada.)

De qualquer forma, de tanto enrolar o texto não ficou sobre natal, ou sobre ano novo, mas sim sobre como todos nós fazemos tantas coisas assim, do nada, sem parar para pensar no que queremos realmente dizer. Isso não é meio que uma falsidade ideológica, quase? Sair falando coisas para as pessoas, com um ar de vagamente (ou até falsamente) contente, sem saber o que exatamente desejamos? O natal, o ano novo... me parecem palavras carregadas de significado simbólico, veja quantos séculos tivemos para acumulá-los... Mas coisas com tantos significados podem também acabar não tendo significado algum.

Feliz Natal, então, é o que? "ganhe um monte de presentes, encha a cara e coma coisas gordurosas?", ou talvez "faça a festa perfeita e estressante para todos os seus familiares e tente evitar as brigas entre adultos e bagunça entre crianças?" ou "lembra lá daquele menininho que supostamente nasceu há 2000 anos atrás, todo pobrezinho, mas na verdade era pra ele salvar o mundo?" ou, ou... E olha que eu não vou nem começar no ano novo.

Talvez eu esteja sendo boba. Oras, talvez as pessoas só queiram dizer "seja feliz nessa época do ano que é o natal". Mas aí voltamos para o significado do natal - afinal, ninguém sai dizendo "feliz dia de hoje!" ou "seja feliz" todos os dias. Será que não é um desejo, mas um dever, que sejamos felizes no natal, no ano novo ou no nosso aniversário?

Pronto, já compliquei tudo de novo.

Clarisse Lispector já dizia que só com muito trabalho que conseguia a simplicidade... E com esse emaranhado de coisas complicadas, concordo plenamente com ela.

Mas, como sempre faço na vida real, ao invés de arrumar toda a bagunça que faço (só que, ao invés de serem roupas e CDs e muitos papéis, são idéias), simplesmente deixo tudo lá, empilhado em um equilíbrio precário e fantasticamente desafiador da gravidade, deito-me em minha cama e durmo feito um pedregulho. Não tenho pretensões de ter todas as respostas, nem mesmo de fazer as indagações certas - não tenho nem o diploma nem o talento - então só fico pirando aqui sozinha, na tranquilidade de que poquíssimos vão ler, mesmo...

Mas fica a pergunta: o que significa dizer "feliz natal", ou "feliz ano novo"? Tento construir meu significado - ou substituir por uma frase um tantinho mais criativa quando tiver que falar. E assim caminha o pensamento, e assim eu caminho para minha cama.
Boa noite!

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Tempo de Viver

E lá vou eu ver o blog de novo, e perceber que já faz quase meio ano que eu não escrevo nada... Aliás, vejo meu diário, meu caderno de poesias, até mesmo minhas idéias de histórias e... nada. O pouco que eu escrevo são os trabalhos de faculdade, as conversas paralelas no caderno de introdução a filosofia e uma ou outra charge mal-desenhada com os Nietzsche, os deuses do olimpo e Hans Kelsen...

Mas acho que não vim aqui para falar de meus desenhos, não é?

A questão é que, com tanta coisa acontecendo, parece que eu não tenho nem mais tempo de escrever... Ou será que tenho?

Quando paro e penso, vejo que escrevia muito mais em épocas em que tinha, sim, montanhas de coisas para fazer - vide época de cursinho - mas parei de escrever justamente quando tinha algum ócio. Não posso julgar essa "abstinência" pela falta do que comentar, ou pela falta de pensamentos bizarros para me levar a escrever - afinal, tem tantas coisas acontecendo, e tantos pensamentos interessantes e dignos de se escrever sobre, que eu até fico perdida, sem saber por onde começar...

Eu lembro que até os 15 anos, escrevia muito - terminei um caderno grande, cheio de comentários, fácil, fácil... Mas, assim que comecei a namorar pela primeira vez, parei de escrever tanto.

E o que isso tem a ver com a história toda?

Pois bem, a conclusão a qual eu cheguei é que a falta de tempo ou vontade ou paciência para escrever não vem, de fato, do tempo, ou quantidade de assunto, ou volume de coisas que estão acontecendo.

É que simplesmente tem horas que eu não paro para escrever porque estou muito ocupada vivendo. Veja bem, isso não significa que eu não viva direito quando esteja escrevendo - é só que, às vezes, tenho sentimentos tão preciosos e aparentemente comuns que qualquer tentativa de escrevê-los me colocaria naqueles clichês bobos, que eu quero evitar a todo o custo. Ou também porque aproveito cada momento exatamente tal qual ele é, sem precisar repensar ou reciclar ou colocar em palavras, pois só o fato de eu ter vivido aquilo já basta em sua totalidade...

O único problema que isso me causa, naturalmente, é que eu deixo de ter uma chance de olhar para trás e ouvir da minha própria voz (ou, no caso, de meus próprios dedos), o que eu pensava e sentia naquela época -e não uma memória já mudada, envelhecida junto comigo. Eu vejo que até os textos que eu considerava mais bobos são vivos e tem algum significado quando eu volto para lê-los.

E aí eu me lembro do porquê de eu estar aqui, de eu manter um blog que seja - não para a posterioridade, nem necessariamente para os outros (que têm uma paciência de ouro para aguentar as minhas pirações aqui), mas sim para que eu também possa olhar para trás e ver quem eu fui, para entender quem e por que eu sou o que sou agora.

Porque o que sou é sempre mutável - ainda procuro entender o que pode ter restado de estático em minha vida, se há uma essência de Luisa ou apenas marcas que a vida deixou interagindo com marcas que a vida ainda quer deixar. Já fui extrovertida, já fui tímida, já fui manhosa e estóica, já fui amarga e otimista... Mas talvez haja uma coisa genuinamente minha, uma alma (quem sabe?) que guarde algumas diretrizes básicas para o mundo e minha teimosia construirem...

Será que isso também muda com o tempo?

Enfim, é findo meu tempo e a bateria do laptop, ainda tenho algumas pendências antes de acabar o semestre, e nem a própria autora aqui aguenta tantas "metablogagens", mil e uma justificativas do porquê de escrever ou não, que acabam tomando uma enorme parte das minhas linhas.

Despeço-me então, com uma (talvez vã) promessa de tentar registrar os momentos tão bons que vivo, até mesmo quando difíceis, nunca em sua totalidade, mas pelo menos algumas fotografias de letras para que possa lembrar o quanto me sinto viva...

Tentarei pois conciliar meu tempo de viver com o tempo de escrever.

domingo, julho 26, 2009

...e quando falo que vou tomar vergonha na cara e atualizar isso de vez em quando, me acontece uma dessas... Desde novembro, imagina só!

Ah, mas não posso dizer que a vida não estivesse complicada o suficiente - vestibular, cursinho, final de namoro, começo de namoro, rolos intermediários e ah, sim, mudar de cidade... É, acho que não dá exatamente muito tempo para sequer pensar em escrever em um blog que ninguém lê mesmo.

Mas, se me manifesto aqui agora, é talvez mais para afirmar minha diferença em relação a quem eu era no último post do que qualquer outra coisa... Porque se teve uma coisa que não deixei de fazer desde a última atualização, foi pensar. Exaustivamente, quase excessivamente, alguns diriam, mas estava lá, sempre pensando. Uma ou outra poesia ainda saiu, meus diários de papel e caneta continuam sendo molestados com minha letra horrível...

Claro que não quero dizer que um pequeno post em homenagem a alguém que agora é um ex- seja obra de alguém que não pensa - é até bom ler, reler, entender o sentimento racionalmente agora e digerir tudo - mas agora que "os rolos são outros", fica estranho ter ainda aquele post como o primeiro.

Uau, quanta enrolação... Mas o sono, de um lado, e a total necessidade de segredo das coisas que realmente me preocupam me fazem parar por aqui.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Uma história improvável...

No livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, havia uma nave movida à improbabilidade, que, por acaso, era a mais rápida de todas. Afinal, era tão improvável que alguém conseguisse chegar de um lado ao outro da galáxia em poucos segundos, ou até mesmo viajar no tempo, que, se o motor tivesse a improbabilidade do evento como combustível, tornaria isto possível.

Não estou aqui hoje para discutir paródias inteligentíssimas de ficção científica, na verdade – mas sim, para falar de outra história movida à improbabilidade. Não é uma história de universos, ou mesmo de aventura – é uma simples história de duas pessoas.

Não digo “era uma vez” porque não é nenhum conto de fadas, mas em algum lugar no tempo e no espaço havia duas pessoas com probabilidades praticamente nulas de se conhecerem. Entre 190 milhões de brasileiros, e ainda 600 quilômetros de distância que os separavam, pode-se dizer que, se não houvesse nenhum fator que os unisse, eles nunca se conheceriam – e este era realmente o caso.

Ela dizia que pensava de mais, enquanto ele tinha como filosofia não pensar. Ela era pequena, mas subversiva e sem medo de usar sua capacidade de intimidação, enquanto a altura incomum dele mal mascarava uma disposição dócil e pacífica. Se, apesar da improbabilidade, viessem a se encontrar em um contexto normal, provavelmente não se falariam – ela que era naturalmente mais solitária, e ele que tentava se encaixar em um grupo que provavelmente não toleraria conversar com “a menina estranha”.


Mas eis que, no contexto mais improvável possível, os dois se conheceram: do outro lado do Atlântico. Quase duas semanas morando no mesmo prédio, porém, provavelmente não seria o suficiente para que vissem além da superfície do outro: que ela visse a fagulha de profundidade e inteligência por trás do exterior típico de adolescente indiferente, e que ele visse a humanidade por trás da fachada de ferro. E, mesmo que vissem o que havia de diferente no outro, seria altamente improvável que fizessem qualquer coisa a respeito em tão pouco tempo – ainda mais com a diferença de idade “para mal”: altamente improvável que se envolvam com mulheres mais velhas assim, de cara. Talvez mais improvável ainda seja que a iniciativa tivesse partido dela – e ainda mais improvável que ela quase tivesse ouvido um “não” e continuado a insistir.

A probabilidade de eles terem acabado juntos está tão perto de nula que as chances são desprezíveis – ainda mais com a consciência do tempo curto que tinham. E isso sem falar da probabilidade de continuarem juntos mesmo depois de voltarem ao Brasil.


Estatisticamente falando, namoros à distância tendem a durar menos, seja pela saudade que tanto incomoda ou pela maior probabilidade de traição. É altamente improvável que eles tenham conseguido, e mais, que tenham se ajudado mutuamente a até mesmo consertar alguns aspectos da vida do outro.

Considerando-se tanto os tempos em que vivem, quanto a personalidade de cada um, as chances de dar errado eram enormes e as probabilidades de acerto, mínimas...Mas 4 meses depois, continuamos movidos a improbabilidade.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Não é todo o sentimento do mundo.

Existem pessoas que choram em despedidas, que sorriem e abraçam todos o tempo todo, que sabem ser simpáticas e sociáveis, que gritam de susto, alegria ou surpresa, que pulam e dançam,mostram pena e compaixão, cobrem de elogios e sabem dizer exatamente o que estão sentindo para o mundo inteiro...

Mas existem também, neste vasto mundo, alguns que não se comovem com nada, dão de ombros diantes da solidão e das despedidas, mal sorriem sem um tiquinho de amargura e se mantém desconfiados de todos que se aproximam um pouco mais. São pessoas que vêem até as situações mais cruéis ou com potencial para magoar com um olhar clínico e tem como esporte falar para si mesmo as verdades mais inconvenientes, e talvez até deixá-las escapar para os outros. São pessoas sem grandes manifestações de alegria ou até mesmo de tristeza, de raiva contida, assim como gestos e a expressão de quase toda a emoção... São pessoas frias.

Me encaixo na segunda categoria.

Já fui chamada, direta ou indiretamente, de uma pessoa fria (criatura perversa que brinca com as emoções de pessoas só porque acha interessante entra na categoria de direto ou indireto?) E não é com autopiedade que digo isso: é quase com um certo orgulho estóico. Diante do que é negativo, a duras penas, consego me controlar relativamente bem: Domino a técnica de não chorar depois de terminar um relacionamento de mais de um ano, a incrível habilidade de sorrir diante das grandes decepções, maquiar uma quase-depressão por "é só cansaço, vou dormir mais cedo" e uma autocrítica dura que não permite que coisinhas bobas como emoções interfiram no relacionamento com os outros.
Quando confrontada com grandes sentimentos positivos, porém, o velho mecanismo também funciona: ser elogiada, quando acontece, provoca uma reação desconfiada e quase hostil, e o fantasma do risco de começar a ser sentimental também me faz calar alguns verdadeiros e bem-merecidos elogios que poderia fazer a pessoas que admiro. Talvez ser extremamente dura comigo mesmo me faça, inconscientemente, ser dura e crítica com o resto do mundo também - Mas não se preocupe, resto do mundo, não hei de submetê-lo à mesma ditadura a qual me submeto.

Me torno assim uma pedra, um ser blindado para o bem e para o mal, refletido nos olhos frios que parecem estar olhando para dentro ao invés de para fora...

Mas eis um segredo, que muitos ignoram: Não sou fria por não ter sentimentos. Sou fria justamente por sentir de mais.

Parece contraditório, não é? A questão é que sentir e mostrar sentimentos é uma coisa muito diferente...

Começando o mais próximo possível de uma análise histórica, sendo que minha história não excede nem mesmo duas décadas de existência, é que se percebe a natureza da minha frieza. Eis que houve um dia uma menininha exuberante e extremamente afetiva, que tecia comentários sobre tudo e todos e não tinha tanto medo de falar com adultos... Mas ela tinha uma falha fatal e imperdoável: era sensível.

Na infância, fora os barulhos altos, boladas e briguinhas que a faziam chorar, tinha um ambiente em que podia afundar-se nos livros e viver no mundo da fantasia, voltando à realidade ocasionalmente para um jogo ou outro...

Mas quando a adolescência e suas melancolias chegaram, as coisas começaram a mudar. Começou a acordar dos sonhos de infância e entrar no mundo de dissimulação, manipulação e hierarquia social que já se delineava desde o maternal, mas só definia seus contornos mais finos agora.

Foi então que ocorreu a segunda "falha trágica" da história: ao invés de se posicionar seguramente atrás de um grupinho, onde os sentimentos expostos e compartilhados seriam parte de um pequeno tesouro comunal que somente se dissolveria junto com as amizades e relativamente protegidos, ela escolheu ( ou foi empurrada para, a depender da interpretação) um caminho alternativo, de mais livros e menos pessoas

E com isso, inevitavelmente, vieram os ataques.

De olhares de desdém até difamação, se todos os sentimentos estivessem assim explícitos, metade do tempo se passaria em uma depressão patética - aliás, em alguns momentos, não esteve muito longe disso.

Mostras as emoções significaria não só conceder vitória a quem queria atormentar, mas também abrir minha vulnerabilidade para o mundo inteiro, e até mesmo suscitar pena.

E pena é a última coisa que eu quero que sintam de mim. Podem chamar de orgulho, arrogância ou até mesmo de vaidade, mas assim como eu só sinto pena de meus piores inimigos, não desejo que sintam pena de mim de forma alguma.

Então, depois de chorar no começo, se deprimir um pouco, fui progressivamente endurecendo. Cada decepção com supostas amizades reforçava isso, ao ponto em que estar me sentindo perfeitamente bem sozinha se torna a regra, e não a exceção. Pessoas com as quais eu possa me identificar são vistas com olhos críticos e desconfiados - mesmo que sob um aparente sorriso, a mente aprendeu a trabalhar da forma mais calculista possível.

Mas por que fazer isso? Por que não só esconder, mas suprimir os sentimentos, forçar uma mentalidade quase de máquina até mesmo em relacionamentos afetivos? É por orgulho? Por defesa?

É simplesmente pelo excesso de sensibilidade.

Não mostrar sentimentos não significa que eles não existem - eles existem, e em tamanha força que só com uma rígida disciplina pode-se mantê-los em ordem. Chorar apenas à noite, quando todos estão dormindo, descarregar tudo em música, poesia, escapar por algumas horas no mundo da ficção...

Porque as pessoas não merecem ouvir tudo o que sinto: é tedioso até para mim, seria para elas também, não?

Para algumas pessoas, não é.

(Ainda) não sou hermeticamente fechada, e de vez em nunca, algumas pouquíssimas e seletas pessoas vêem o que de fato está acontecendo - alguns porque enxergam o que há por trás de todo o sarcasmo, outros porque me conhecem melhor do que eu poderia sonhar em me conhecer - e, o mais incrível de tudo, não saem correndo diante de alguém que se revela ser tão temperamental.

Meus sentimentos não são o meu "tesouro" que eu só deixo alguns poucos verem - é na verdade a poeira embaixo do tapete da qual algumas visitas tomam conhecimento sem, porém, me criticar por isso - e assim caminha a humanidade.

Minha definição de ser fria não é a de não ter sentimentos - é simplesmente escondê-los a sete chaves e só realmente compartilhá-los com quem vale a pena.

segunda-feira, março 24, 2008

Minha auto-ajuda.

Não, isto não é uma receita para a sua vida. Na verdade, eu não sei exatamente como é a sua vida porque eu não sou você, e, consequentemente, não sei o que se passa pela sua cabeça. Infelizmente, não sei nem bem o que se passa pela minha cabeça.

Com o pouco que sei, então, tento delimitar e resolver minha situação da melhor forma que posso: escrevendo.


Minha Auto-Ajuda



Preciso voltar a escrever, e não é por vaidade.
Não é para deixar a minha marca no mundo,
Nem para extravasar minha criatividade.
Não é para me distrair no tédio,
Nem para que os outros leiam.

Escrevo unicamente para mim.
Para minha sanidade mental.

Porque meu interior se inunda de emoções que nã oposso demonstrar.
Porque o exterior é tão hostil que a tempestade interior é minha única alternativa de refúgio.
Porque a depressão está do outro lado, me chamando, e a apatia da auto-piedade parece tão confortável...
Porque as veias do meu braço pulsam tão azuis e frias, quando eu quero sentir quente e vermelho.
Porque quero ser uma rocha, quando tudo o que tenho é um coração de manteiga e uma casca de fel...
Porque minha garganta dói de engolir sapos, abacaxis, meu orgulho e tantas lágrimas...
Porque me sinto acuada por bolhas de mundo cor-de-rosa, com suas risadinhas que me reviram o estômago, que escondem a inveja e crueldade...
Porque, se eu falo alto, todos dizem que não está acontecendo nada.

Assim esparramo minha vulnerabilidade no papel
Domando a tempestade com palavras
Mãos escoando o que me arranha a garganta
Me acalmo, vou lamber minhas feridas
Aguentar as pedras e mais um dia
Sem quebrar, mesmo com tantas rachaduras

Para quando me levantar,
Quando a cobra tiver de volta seu veneno
Erguer escudos com casquinhas de feridas
Transformar cada ferida em uma lição
A antiga tristeza, em desprezo,
Pensar em todo esse processo como uma banalidade corriqueira
E sorrir.






Isso foi uma poesia? Não. Sem rima, sem métrica, apenas um desabafo escrito em linhas. Agora, no quesito interpretação...
Se quiser perder seu tempo tentando interpretar, fique à vontade.